05/12/2009

Intervenção Artística: Heteroglossia Babélica


Registro do processo...

A definição de um tema e talvez uma técnica foi o ponto de partida do projeto, os primeiros encontros tiveram como finalidade a decisão democrática do que seria produzido pelo grupo. Desde o inicio do projeto foi possível notar a diversidade de técnicas e idéias que cada membro poderia trazer para o trabalho coletivo e esta variedade, resultante da pesquisa de cada um destes artistas em arte e sua produção anterior, tornou-se um problema, uma vez que torna-se cada vez mais dificultoso amarrar todas estas propostas individuais que a cada debate mais se distancia, como se todos partissem cada vez mais distantes de um ponto central, como em uma grande explosão.
Este ambiente caótico não é exclusividade do projeto em questão, é reflexo das principais características da contemporaneidade, termos como hibridismo, diversidade, multiculturalidade, heterogenia, multipolar estão cada vez mais presentes nos postulados filosóficos. A unidade vem sofrendo uma ruptura, se é que ela existiu de fato e, talvez, o mito da Babel seja a tentativa de se afirmar que, pelo menos no campo da linguagem, esta unidade foi um dia possível, assim, a utopia hemoglóssica tem liberdade para sobreviver.


1 – O grupo debate a dinâmica do trabalho; 2 – George Gutlich orienta o grupo nos encontros;
3 – Natalia Balogh elabora os esboços de sua proposta; 4 – A Babel começa a ser pensada no coletivo através dos esboços em A4.

Em um dos debates do grupo, um sussurro pairou como a solução necessária, não como algo que permite uma unidade do grupo, mas sim, algo que explora esse caos de desentendimento: Este trabalho parece mais uma torre de Babel!
A partir disto o tema foi ganhando importância e o percurso começou a ser pensado pelo grupo, bastando definir o suporte e técnica: A xilogravura e o lambe-lambe.


1 – Impressão manual feita no Atelier de Gravura da UBC para prova de estado, impressão de Marcio Rogério; 4 – Impressão em máquina tipográfica da Gráfica Fidalga, trabalho da Mayra Mello; 3 – Detalhe da máquina tipográfica; 4 – Impressão de Thiago Castro.

No dia 14 de Agosto de 2008 o grupo que, além de definir o cronograma do projeto, participou de um debate, utilizando como base o livro “Elogio a desarmonia” de Gillo Dorfles, mais precisamente o primeiro capítulo, dedicado ao Mito da Babel e é deste texto que foi definido o nome do projeto: Heteroglossia Babélica.
Neste dia, também, foi feito uma análise da obra Torre de Babel de Pieter Bruegel, obra que serviu de base visual para o trabalho coletivo.
No dia 21 de Agosto o debate continuou, foram analisadas diferentes versões da Bíblia Sagrada, trechos do livro Paisagens Urbanas de N.B, Peixoto e para melhor compreensão da obra de Bruegel foi feito um estudo do espiral o que levou o grupo até a Música das Esferas de Pitágoras.
No dia 28 de Agosto uma parte da Babel de Bruegel foi dividida em 20 partes, uma para cada membro do grupo e ficou definido a partir de que pedaço da Babel cada artista deveria iniciar sua proposta. Os esboços em tamanho reduzidos, A4, foram apresentados no dia 28 de Agosto e cada artista falou sobre suas pretensões sob a orientação do gravador e artista plástico George Gutlich.
No dia 4 de setembro os esboços em tamanho real foram reunidos e posicionados conforme proposto na divisão da Torre de Babel de Bruegel definida no dia 28 de Agosto para que observações e mudanças pudessem ser realizadas pelos artistas ao observar seu esboço inserido em um contexto mais amplo, mesmo na diversidade de conversas, o diálogo passou a ser fundamental.
No dia 11 de setembro foi realizada uma palestra pelo psicanalista Dr. Orlando Hardt com o tema: A Babel na psicanálise. A palestra tornou-se mais uma possibilidade de diálogo e o tema passou a abarcar novas possibilidades.
As matrizes, placas de virola com o tamanho 64 X 94 centímetros, foram preparadas com lixa, goma laca indiana e nanquim no dia 18 de setembro, sendo que, neste mesmo dia, os desenhos dos esboços foram transferidos para as matrizes para que pudesse ser realizado o trabalho de gravação. Todas as matrizes formam um painel de 2,80 X 5 metros, a proposta é a de formar um grande painel com as impressões fixando-as em paredes no sistema expositivo lambe-lambe.
A gravação foi executada no Atelier de gravura da Universidade Braz Cubas, localizada em Mogi das Cruzes, São Paulo, nos dias 25 de setembro, 2 e 9 de outubro e nos dias 16 e 23 de outubro os artistas imprimiram as provas utilizando método de impressão tradicional. No dia 27 as matrizes foram embaladas para serem transportadas até a Gráfica Fidalga, responsável pela impressão.


1 – Marcelo Grassmann, à direita, acompanha a impressão; 2 – Oscar D’ambrósio visita o Atelier e conversa com o grupo sobre a proposta; 3 – Painel afixado na Galeria do IA-Unicamp; 4 – Outro ângulo do painel afixado na Unicamp de 2,80 X 5 metros.

No dia 28 de Outubro as matrizes foram levadas até a Gráfica Fidalga, localizada na Rua Fidalga, 490 – Vila Madalena em São Paulo, e foram realizadas 100 impressões de parte das matrizes em uma máquina tipográfica sob supervisão de Márcio Rogério e Jonathan Furuyama. No dia 02 de novembro o trabalho de impressão foi finalizado na gráfica sob a supervisão de Natalia Balogh, George Gutlich e Jonathan Furuyama, acompanhados por Marcelo Grassmann, que prestigiou o grupo com sua presença.
No dia 06 de Novembro o grupo se reuniu para debater a próxima etapa do projeto, que incluiu exposições, intervenções urbanas, projeto visual, produção dos álbuns e outros detalhes importantes. O projeto visual ficou a cargo do artista Marcio Rogério que coletou a proposta poética de cada artista envolvido no projeto. Foi definido um nome fantasia para o grupo: Grude!
No dia 8 de Novembro o grupo contou com a honrosa visita do crítico de arte Oscar D’ambrósio, que conversou com os artistas a respeito do projeto e enviou ao grupo na semana seguinte um texto com o título: Babel de gravuras, no qual está contido suas impressões sobre o trabalho coletivo e a proposta individual de cada artista participante.
Os dias 13 e 20 de Novembro foram dedicados ao corte das impressões, assinatura e organização das gravuras que ficaram divididas em 5 P/As e 50 seriadas para os álbuns, as outras 45 foram separadas para serem afixadas nas paredes, em sistema expositivo lambe-lambe, nos locais definidos e acertados para exposições e para as intervenções em locais públicos.
Ainda no dia 20 as gravuras foram afixadas em uma parede interna do Atelier de gravura em metal da UBC em Mogi das Cruzes, quando foi testado o grude feito com trigo e a melhor forma de se afixar o lambe-lambe.
No dia 27 de Novembro, Kaique Sanches, Thiago Fernandes Castro e Jonathan Furuyama partiram para São José, onde realizaram intervençoes urbanas na madrugada. No dia seguinte, o painel de gravuras foi afixado em uma parede externa da Galeria de Arte do IA-Unicamp em Campinas, sendo que o trabalho foi acompanhado por Maria Lucia Neves e um outro painel afixado no Departamento de gravura da Unicamp, sob acompanhamento de Danilo Perillo, aproveitou-se a ocasião para deixar um álbum com uma série das gravuras no acervo do Departamento de gravura da Unicamp.
No dia 4 de Dezembro o painel de gravura foi afixado na parede externa do Campus 1 da UBC em Mogi das Cruzes, no dia seguinte o painel foi montado na parede frontal externa da Biblioteca Central da UBC.
No dia 04 de Dezembro o Artista plástico mexicano Jorge Vallejo Murillo recebeu uma série não assinada e partiu no dia 11 para o México com o propósito de afixar o painel lá, Jorge também levou um álbum para que o mesmo possa fazer parte do acervo de uma instituição mexicana de arte, o grupo aguarda noticias.

A proposta não foi concluída, o grupo, até a presente data, negocia novos espaços para intervenções, a Torre de Babel continua...

Por Marcio Rogério Ferreira de Souza

2009© Marcio R. Gotland
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