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07/03/2010



E era toda a terra duma mesma língua, e duma mesma fala;
E aconteceu que, partindo eles do Oriente,
acharam um vale na terra de Sinear, e habitaram ali.
E disseram uns aos outros: Eia, façamos tijolos, e queimemo-los bem.
E foi-lhes o tijolo por pedra, e o betume por cal.
E disseram: Eia, edifiquemos nós uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus,
E façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra.
Então desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam;
E disse: Eis que o povo é um, e todos têm uma mesma língua, e isto é o que começam a fazer;
e agora, não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer.
Eia, desçamos, e confundamos ali a sua língua, para que não entenda um a língua do outro.
Assim o Senhor espalhou dali sobre a face de toda a terra, e cessaram de edificar a cidade.


A Babel, cidade onde a grande torre foi concebida como projeto e em parte edificada tem como primordial objetivo explicar a diversidade linguística dos povos, ele cria, a partir do momento da intervenção divina, uma genealogia da linguagem, e isto ocorre porque, o encontro entre a intenção superior de delimitar a ação humana e o desejo humano de ter o cume da torre e um nome que não permita sua desagregação provoca uma ruptura na linguagem adâmica que os unia. As línguas que dali surgiram continuaram a se fragmentar resultando em novas variações linguísticas.

A heteroglossia, razão de desentendimentos entre povos, de guerras e conflitos, é um dos argumentos que resulta no conceito de nação, é o elo que une e o muro que separa os povos. Esta diversidade lingüística impede um projeto humano a nível global, delimita a intenção humana, no entanto, permite a elaboração de projetos nacionais, entre os quais, os de dominação de uma nação sobre outra por intermédio da língua.

Para uma compreensão melhor do Mito da Babel em sua dimensão histórica, é necessário observar alguns fatos anteriores a ele relatados no livro bíblico de Gênesis, livro este que apresenta os fatos organizados numa narrativa linear.
O capítulo 2, versículo 19 de Gênesis, afirma: “Havendo pois o Senhor Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda ave dos céus, os trouxe a Adão, para estes ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome.[1]

Nota-se no fato o desenvolvimento da linguagem pré-babélica quando Adão atribui nomes aos animais. Esta língua adâmica, hemoglóssica, permaneceu dessa forma, sobreviveu ao nascimento de Caim, Abel e Sete; ao primeiro homicídio[2]; Ao dilúvio e a salvação de Noé e seus três filhos: Sem, Cão e Jafé[3]; até que o projeto da torre resulta na confusão das línguas relatada no capítulo 11.

No capítulo 9 de Gênesis, Noé e seus filhos, Sem, Cão e Jafe, recebem de Deus a seguinte ordenança: “Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra.” Mais a frente, o capítulo 10 afirma que Cão, um dos filhos de Noé, teve quatro filhos, um deles de nome Cuse, foi pai de Ninrode. O versículo 8 afirma que “Ninrode foi poderoso sobre a terra”, o versículo 10 diz que Babel, Ereque, Acade e Calne foi o princípio de seu reino.

É provável que Ninrode, seja o líder dos homens, que no relato da torre, se unem para construí-la.

Existem pequenas diferenças nas formas que o Mito da Babel é apresentado nas diferentes versões da Bíblia, na Bíblia de Jerusalém os homens pretenderam construir uma torre em que “o ápice penetre os céus”, na construção da torre “o tijolo lhes serviu de pedra e o betume de argamassa” e “Iahweh” confundiu sua língua; Na Bíblia Hebraica, para a construção da torre “foi para eles tijolo por pedra e o barro foi para eles por argamassa”, um outro objetivo dos homens fica evidente nesta versão bíblica quando eles dizem: “edifiquemos para nós uma cidade e uma torre, e que seu cume chegue aos céus e conseguiremos para nós fama, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra. E o “eterno” desceu e confundiu a língua dos homens; Na versão de João Ferreira de Almeida, “foi-lhes o tijolo por pedra, e o betume por cal”, e o “Senhor” desceu e confundiu a língua dos homens.

Gillo Dorfles, em seu livro Elogio a desarmonia, aponta no capítulo 1, uma versão persa do mito: “segundo a qual a heteroglossia é descrita como obra de Arimam, portanto, de uma entidade demoníaca.[4]” Para Dorfles, o “peso da incomunicabilidade” é sentido quando homens de línguas diferentes se aproximam.

O autor afirma ainda que a hemoglossia foi e ainda é, em tempos contemporâneos, uma das grandes utopias da humanidade, significaria o fim das incompreensões, dos conflitos entre diferentes nações:


Bruegel, Torre de Babel, óleo sobre tela, 1573, divida entre os participantes do projeto.

A utopia, por acaso, consiste no julgar que existia um presente ou futuro topos onde seja possível o retorno à hemoglossia, à edémica e pré-babélica situação perdida pelos nossos pais por culpa da sua ambiciosa escalada a um Paraíso nunca alcançado. [DORFLES, 1986]
A Torre de Babel, como projeto não concluído projeta-se em parte e através da Gestalt torna-se completo e ao mesmo tempo como projeto abandonado torna-se ruína, corroída pelas intempéries, envelhecida com o tempo, contém em si dualidades, vida e morte, inicio e fim, mantendo o potencial utópico de seu término e a possibilidade de sua inevitável destruição.

Para o psicanalista Orlando Hardt a Torre de Babel está em construção dentro de cada pessoa, esta relação entre o Mito e o universo interior do ser também é explorado por Borges em Biblioteca de Babel.

Peixoto encontra a Babel no espaço urbano, e Jean-Marc Besse está mais interessado em como Bruegel explora a paisagem e para esta compreensão o importante ensaio pictórico de Bruegel sobre a Babel não pode ser ignorado, apesar da pintura de Bruegel se impor como uma grande preocupação do pintor com os costumes da grande cidade de Antuérpia.

Entretanto, o grande trunfo do Mito da Babel é o de estar além do tempo e espaço, se reconstruindo em cada contexto, encontrando novos sentidos e se impondo como ponto de partida para discussões que busquem a compreensão da contemporaneidade.

A Torre de Babel, representada por pintores, gravadores, escritores, cineastas, coreógrafos, artistas das mais variadas mídias em épocas distintas, cada um buscando compreender o seu próprio tempo: Bruegel, Doré, que contribuíram com formas que foram aglutinadas ao imaginário coletivo. Para o cineasta Alejandro Gonzales a Babel representa o mundo globalizado, cada vez mais curto e conectado. Além disso, não é difícil reencontrar a Babel no mesmo local onde os historiadores afirmam ter existido em tempos remotos, a Babel localizada na Mesopotâmia estaria hoje no Iraque, onde em decorrência da invasão pelos E.U.A e outras nações aliadas podem se ouvir línguas diferentes e pessoas de diferentes religiões e culturas que transitam naquele espaço geográfico.

Por fim, dando continuidade a este ciclo, o de explorar as possibilidades do Mito da Babel, estes artistas gravadores trazem, cada um, a sua Torre de Babel, para uns a Babel pode abarcar a cidade, para outros é engolida pelo ser que a carrega em seu âmago, para outros a Babel pode se deslocar no espaço, ela está no nicho, no microcosmo ou no macro-cosmo, ela explica o mundo ou o confunde. O fato é que a Babel está aí, incompleta, a espera de um sentido, de novos significados, de novas interpretações, de contribuições. Estes artistas propõem ansiosamente que outros se aproximem e com eles dialoguem sobre tal importante assunto.

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[1] A Biblia Sagrada, edição revista e corrigida, tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969, Gênesis, cap. 2 vers. 19.
[2] Idem, cap. 4
[3] Ibidem, cap. 7 e 8
[4] DORFLES, Gillo. Elogio a desarmonia, Lisboa: Edições 70, 1986

REFERÊNCIAS:

A BÍBLIA SAGRADA, edição revista e corrigida, tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969;
BESSE, Jean-Marc. Ver a Terra, São Paulo: Perspectiva, 2005;
BÍBLIA DE JERUSALÉM, São Paulo: Paulus Editora, 1981;
BÍBLIA HEBRAICA, São Paulo: Sefer, 2007
BORGES, Jorge L. A biblioteca de Babel, Revista da Biblioteca Mario de Andrade, São Paulo: 1991;
DORFLES, Gillo. Elogio à desarmonia, Lisboa: Edições 70, 1986;
PEIXOTO, N. B. Paisagens Urbanas, São Paulo: SENAC, 2003

Por Márcio Rogério Ferreira de Souza

2010@ Marcio R. Gotland

05/12/2009


Registro do processo...

A definição de um tema e talvez uma técnica foi o ponto de partida do projeto, os primeiros encontros tiveram como finalidade a decisão democrática do que seria produzido pelo grupo. Desde o inicio do projeto foi possível notar a diversidade de técnicas e idéias que cada membro poderia trazer para o trabalho coletivo e esta variedade, resultante da pesquisa de cada um destes artistas em arte e sua produção anterior, tornou-se um problema, uma vez que torna-se cada vez mais dificultoso amarrar todas estas propostas individuais que a cada debate mais se distancia, como se todos partissem cada vez mais distantes de um ponto central, como em uma grande explosão.
Este ambiente caótico não é exclusividade do projeto em questão, é reflexo das principais características da contemporaneidade, termos como hibridismo, diversidade, multiculturalidade, heterogenia, multipolar estão cada vez mais presentes nos postulados filosóficos. A unidade vem sofrendo uma ruptura, se é que ela existiu de fato e, talvez, o mito da Babel seja a tentativa de se afirmar que, pelo menos no campo da linguagem, esta unidade foi um dia possível, assim, a utopia hemoglóssica tem liberdade para sobreviver.


1 – O grupo debate a dinâmica do trabalho; 2 – George Gutlich orienta o grupo nos encontros;
3 – Natalia Balogh elabora os esboços de sua proposta; 4 – A Babel começa a ser pensada no coletivo através dos esboços em A4.

Em um dos debates do grupo, um sussurro pairou como a solução necessária, não como algo que permite uma unidade do grupo, mas sim, algo que explora esse caos de desentendimento: Este trabalho parece mais uma torre de Babel!
A partir disto o tema foi ganhando importância e o percurso começou a ser pensado pelo grupo, bastando definir o suporte e técnica: A xilogravura e o lambe-lambe.


1 – Impressão manual feita no Atelier de Gravura da UBC para prova de estado, impressão de Marcio Rogério; 4 – Impressão em máquina tipográfica da Gráfica Fidalga, trabalho da Mayra Mello; 3 – Detalhe da máquina tipográfica; 4 – Impressão de Thiago Castro.

No dia 14 de Agosto de 2008 o grupo que, além de definir o cronograma do projeto, participou de um debate, utilizando como base o livro “Elogio a desarmonia” de Gillo Dorfles, mais precisamente o primeiro capítulo, dedicado ao Mito da Babel e é deste texto que foi definido o nome do projeto: Heteroglossia Babélica.
Neste dia, também, foi feito uma análise da obra Torre de Babel de Pieter Bruegel, obra que serviu de base visual para o trabalho coletivo.
No dia 21 de Agosto o debate continuou, foram analisadas diferentes versões da Bíblia Sagrada, trechos do livro Paisagens Urbanas de N.B, Peixoto e para melhor compreensão da obra de Bruegel foi feito um estudo do espiral o que levou o grupo até a Música das Esferas de Pitágoras.
No dia 28 de Agosto uma parte da Babel de Bruegel foi dividida em 20 partes, uma para cada membro do grupo e ficou definido a partir de que pedaço da Babel cada artista deveria iniciar sua proposta. Os esboços em tamanho reduzidos, A4, foram apresentados no dia 28 de Agosto e cada artista falou sobre suas pretensões sob a orientação do gravador e artista plástico George Gutlich.
No dia 4 de setembro os esboços em tamanho real foram reunidos e posicionados conforme proposto na divisão da Torre de Babel de Bruegel definida no dia 28 de Agosto para que observações e mudanças pudessem ser realizadas pelos artistas ao observar seu esboço inserido em um contexto mais amplo, mesmo na diversidade de conversas, o diálogo passou a ser fundamental.
No dia 11 de setembro foi realizada uma palestra pelo psicanalista Dr. Orlando Hardt com o tema: A Babel na psicanálise. A palestra tornou-se mais uma possibilidade de diálogo e o tema passou a abarcar novas possibilidades.
As matrizes, placas de virola com o tamanho 64 X 94 centímetros, foram preparadas com lixa, goma laca indiana e nanquim no dia 18 de setembro, sendo que, neste mesmo dia, os desenhos dos esboços foram transferidos para as matrizes para que pudesse ser realizado o trabalho de gravação. Todas as matrizes formam um painel de 2,80 X 5 metros, a proposta é a de formar um grande painel com as impressões fixando-as em paredes no sistema expositivo lambe-lambe.
A gravação foi executada no Atelier de gravura da Universidade Braz Cubas, localizada em Mogi das Cruzes, São Paulo, nos dias 25 de setembro, 2 e 9 de outubro e nos dias 16 e 23 de outubro os artistas imprimiram as provas utilizando método de impressão tradicional. No dia 27 as matrizes foram embaladas para serem transportadas até a Gráfica Fidalga, responsável pela impressão.


1 – Marcelo Grassmann, à direita, acompanha a impressão; 2 – Oscar D’ambrósio visita o Atelier e conversa com o grupo sobre a proposta; 3 – Painel afixado na Galeria do IA-Unicamp; 4 – Outro ângulo do painel afixado na Unicamp de 2,80 X 5 metros.

No dia 28 de Outubro as matrizes foram levadas até a Gráfica Fidalga, localizada na Rua Fidalga, 490 – Vila Madalena em São Paulo, e foram realizadas 100 impressões de parte das matrizes em uma máquina tipográfica sob supervisão de Márcio Rogério e Jonathan Furuyama. No dia 02 de novembro o trabalho de impressão foi finalizado na gráfica sob a supervisão de Natalia Balogh, George Gutlich e Jonathan Furuyama, acompanhados por Marcelo Grassmann, que prestigiou o grupo com sua presença.
No dia 06 de Novembro o grupo se reuniu para debater a próxima etapa do projeto, que incluiu exposições, intervenções urbanas, projeto visual, produção dos álbuns e outros detalhes importantes. O projeto visual ficou a cargo do artista Marcio Rogério que coletou a proposta poética de cada artista envolvido no projeto. Foi definido um nome fantasia para o grupo: Grude!
No dia 8 de Novembro o grupo contou com a honrosa visita do crítico de arte Oscar D’ambrósio, que conversou com os artistas a respeito do projeto e enviou ao grupo na semana seguinte um texto com o título: Babel de gravuras, no qual está contido suas impressões sobre o trabalho coletivo e a proposta individual de cada artista participante.
Os dias 13 e 20 de Novembro foram dedicados ao corte das impressões, assinatura e organização das gravuras que ficaram divididas em 5 P/As e 50 seriadas para os álbuns, as outras 45 foram separadas para serem afixadas nas paredes, em sistema expositivo lambe-lambe, nos locais definidos e acertados para exposições e para as intervenções em locais públicos.
Ainda no dia 20 as gravuras foram afixadas em uma parede interna do Atelier de gravura em metal da UBC em Mogi das Cruzes, quando foi testado o grude feito com trigo e a melhor forma de se afixar o lambe-lambe.
No dia 27 de Novembro, Kaique Sanches, Thiago Fernandes Castro e Jonathan Furuyama partiram para São José, onde realizaram intervençoes urbanas na madrugada. No dia seguinte, o painel de gravuras foi afixado em uma parede externa da Galeria de Arte do IA-Unicamp em Campinas, sendo que o trabalho foi acompanhado por Maria Lucia Neves e um outro painel afixado no Departamento de gravura da Unicamp, sob acompanhamento de Danilo Perillo, aproveitou-se a ocasião para deixar um álbum com uma série das gravuras no acervo do Departamento de gravura da Unicamp.
No dia 4 de Dezembro o painel de gravura foi afixado na parede externa do Campus 1 da UBC em Mogi das Cruzes, no dia seguinte o painel foi montado na parede frontal externa da Biblioteca Central da UBC.
No dia 04 de Dezembro o Artista plástico mexicano Jorge Vallejo Murillo recebeu uma série não assinada e partiu no dia 11 para o México com o propósito de afixar o painel lá, Jorge também levou um álbum para que o mesmo possa fazer parte do acervo de uma instituição mexicana de arte, o grupo aguarda noticias.

A proposta não foi concluída, o grupo, até a presente data, negocia novos espaços para intervenções, a Torre de Babel continua...

Por Marcio Rogério Ferreira de Souza

2009© Marcio R. Gotland


Quem nunca ouviu dizer que a única certeza que se tem da vida é a morte? Como as pessoas lidam com esta incerteza? Todas as buscas da humanidade tiveram como objetivo primordial o controle sobre os fenômenos, a transformação do desconhecido em códigos decifráveis. E como lidar com a idéia de deixar de existir na terra como um ser que transforma, constrói e que dá os passos a partir de objetivos? A forma mais cruel em que a morte se apresenta é aquela que poda os planos pela metade, como um machado que corta a árvore antes que ela dê seus frutos. O que pensar dos poetas que levam suas poesias para o túmulo? Dos artistas que não podem exteriorizar suas criações? Daqueles que portam a solução para os problemas dos homens, mas a morte, com seus caprichos, os silenciam?
Sentir-se distante da morte é ter a sensação que tivera Dorian Gray, a criatura de Oscar Wilde, diante de seu próprio rosto no espelho, sem uma ruga, um sinal do tempo, sem o aviso fatal que a morte dá de sua proximidade. Lorde Wotton bem lhe avisou:

"Um dia, quando estiver velho, enrugado e feio, quando o pensamento lhe houver traçado vincos na testa e a paixão tiver lhe crestado os lábios com o seu fogo detestável, terá a impressão que agora não sente; uma impressão terrível."



Será a morte a traição da vida? A vida faz tantas promessas, mas, só a morte pode cumprir seu destino. Delara Darabi deve refletir sobre isto todo dia, com seus vinte anos e desde os dezessete no corredor da morte, sentenciada ao enforcamento pela lei iraniana por assassinato. Delara afirma ser inocente. Através da arte Delara mostra ao mundo o que é estar a um passo da morte. Quando a morte é mais certa do que aquela que certamente todo homem espera. Sua obra mostra homens que tem como apoio um fino e frágil fio, esta é a vida que tem a sua volta um grande vazio, a morte que espera que o fio se quebre. No entanto, enquanto Delara tem o fino fio pra segurar, exerce a fugaz liberdade através da sua desesperada pintura.


2007© Marcio R. Gotland



A arte contemporânea não se conclui no produto artístico, ela acontece quando está sendo confrontada com os homens, é sempre um meio, um processo inacabado que culmina na desestabilização, na ruptura dos padrões de pensamento. Uma estética que assuma a força rompedora dos rígidos sistemas alienantes acaba, por este caminho, assumindo sua função na construção de uma nova sociedade.
A função da arte vai além da estética, ela permeia o universo ético, político, social, tecnológico e econômico.


"As convulsões contemporâneas exigem, sem dúvida, uma modelização mais voltada para o futuro e a emergência de novas práticas sociais e estéticas em todos os domínios." [GUATTARI]

Com esta instalação, pretendo provocar questionamentos pertinentes ao homem dedicado ao trabalho, vítima da exploração, vítima da cadeia alimentar animal-humana, onde, como proclamou Maquiavel: “Os fins justificam os meios”.
Como recompensa por sua vida dedicada a produção mecânica dos sonhos dos outros, o homem recebe, por cumprir o castigo divino, a esperança de que “o trabalho é uma dádiva, e tudo fica melhor quando sua fotografia é afixada para todos os colegas e clientes virem que ele é “O melhor funcionário do mês.”
3ª Bienal do Alto Tietê – de 26 de Março a 13 de Maio de 2007 – Praça dos Eventos – Poá – SP

Márcio Rogério. Comemorando, Instalação: Pintura digital sobre fotografia, madeira e vidro. 1,66 m x 2,22 m x 80 cm.




Não foi uma proposta de releituras das obras de artistas contemporâneos brasileiros das décadas de 60 e 70, a proposta da exposição, orientada pelo professor Júlio Strelec, ocorrida em Novembro de 2006 na Universidade Braz Cubas em decorrência da VI Semana de Artes foi de Reinvenção. Reinvenção na medida que se articula os pensamentos do artista com o próprio pensamento, aceitando a impossibilidade do impessoal e propositalmente mergulhando estas informações num lago de questionamentos que se mantém sempre em processo de reflexão.
Na variedade de abordagens o artista ora se dilui, ora se projeta na obra. Na produção do grupo do Thiago e Aline Balibardin as bandeiras rígidas e definidas, marca inconfundível de Alfredo Volpi, perdem sua formalidade e passam a se projetarem tridimensionais. Através da translucidez das bandeiras o olhar é levado a assinatura de Volpi: Seja qual for as questões provocadas pela obra, ela sempre trará reflexões sobre seu autor.



Na obra Oiticica³, produção dos artistas Márcio Rogério, Catia Shimohara, Luana Cipriano, Milene Araújo e Renata Franco a antropofagia proposta pelo artista a partir da cultura popular foi o foco da pesquisa. O olhar é levado, por entre os cubos regulares e concretos, a descobrir a liberdade expressiva e informal das festas populares.
Na exposição foram expostas instalações e objetos a partir da pesquisa sobre diversos artistas, dentre eles Iberê Camargo, Tomie Ohtake, Manabu Mabe, Nelson Leirner, Wesley Duke Lee, Lígia Clark e outros.

2006© Marcio R. Gotland

Estarei realizando uma palestra na Universidade Braz Cubas...



As histórias em quadrinhos surgiram em decorrência do desenvolvimento das técnicas de reprodução e dos suportes que, paulatinamente, uniam as imagens aos textos, como as charges litográficas de Honoré Daumier no século XIX e tiveram como o seu grande momento o século XX.
Sendo um potencial meio para divulgação de ideologias, os quadrinhos passaram a sofrer acirrada perseguição por parte dos dominantes. O controle passou a ser o instrumento do poder contra esta mídia, subversiva desde seu nascimento.
Apesar das histórias em quadrinhos ocuparem a pior das posições entre as mídias, acusadas de “emburrecer”, “alienar” e transformar mocinhos em bandidos, desta “maldita fonte” muitos têm bebido. Os quadrinhos têm servido de referência na produção da arte contemporânea e têm estabelecido um diálogo intermídiático intenso. Nas universidades teses e dissertações sobre os quadrinhos têm sido defendidas e nas escolas, professores estão descobrindo agora que novas possibilidades pedagógicas podem ser construídas a partir desta mídia.
As produções de alguns destes artistas serão analisadas, do Pop Art de Lichtenstein ao New Pop de Murakami, além das experiências de artistas brasileiros da arte contemporânea como Carlos Vergara e Antonio Dias. Serão abordados também as experiências da Sutil Companhia de Teatro e do cinema norte-americano, todos tendo as histórias em quadrinhos como uma fonte de pesquisa.

2006© Marcio R. Gotland



Arte e política? A grande questão é até onde uma pode intervir na outra. De tempos em tempos surgem os artistas-militantes, uns com uma linguagem satírica, outros explorando o trágico. No entanto, independente do humor típico das gravuras realistas do século XIX e que se mantém hoje nos cartuns, do humor desesperançoso do Dadaísmo, do trágico do expressionismo alemão, da arte-política direta e fatal dos artistas brasileiros da segunda metade da década de 60, estes artistas acreditam na arte reflexiva, na arte revelando as mazelas da sociedade. Uns descrentes com a humanidade, outros revelando até que ponto o “humanismo” pode ser desumano numa sociedade de classes.



No dia 23 de Setembro de 2006, artistas plásticos, alunos da Universidade Braz Cubas, entre eles Aline Baliberdin e Thiago Fernandes Castro realizaram uma intervenção urbana em Mogi das Cruzes. A intervenção “politicalha” não tem lado partidário, joga do lado do ceticismo, aflorando esteticamente o descrédito da sociedade com um sistema político carcomido. Utilizando da estratégia usada pelos candidatos políticos, os artistas inseriram as placas entre os militantes partidários provocando uma reflexão dos pedestres sobre o sistema eleitoral. Estaria o desejo do povo contemplado nas opções disponíveis nas urnas?




Tempos atraz Marinetti encontrara a beleza da guerra, uma estética do triunfo da máquina sobre o homem, a imagem cruel do homem destruindo o homem com sua sede de poder. No entanto, mais belo que a guerra é a manifestação popular, com suas bandeiras disformes e sua marcha desorganizada, onde o homem não precisa da sistematização da sociedade da guerra, precisa apenas de uma brecha, por onde sua voz possa ecoar entre os outros homens. Na mesma medida em que as imagens dos movimentos políticos e as manifestações sociais mostram-se estéticas, a arte assume sua função política.




Desde que a Arte Conceitual começou a ganhar força e a se firmar na contemporaneidade como uma arte deste tempo para este tempo, os conceitos e muitas vezes as idéias passaram a ter maior importância na produção dos artistas, muitos deles com uma arte provocativa e de enfrentamentos. Este posicionamento é visível desde Duchamp e continuou na forma como o Grupo Fluxus questionava os propósitos dos museus.
Entretanto, a arte contemporânea não é construída apenas de posicionamentos contrários e subversivos, há aqueles artistas que escolhem ir a favor da corrente, e decide seguir pelo viés do consumo e da indústria cultural. Um destes artistas é Takashi Murakami, o japonês que se assumiu um Otaku (Adolescente, típico do Japão, que fica em casa assistindo desenho animado e lendo mangás e que na Arte de Aida Makoto aparece como alienado e escravo do consumo).

Murakami
Aida
Murakami coloca como título de sua obra temas como “Superflat”, mas uma breve analise mostrará que sua produção não é apenas a “imagem pela imagem”. Sua arte colorida e aparentemente descompromissada não está livre de um pensamento crítico sobre a sociedade japonesa. Exemplo está em sua escultura “Hiropon” de 1997, em que leite jorra numa grande quantidade dos seios enormes de uma personagem no estilo dos mangás, como uma referência a mulher japonesa que tem como principal função social ser mãe segundo a Dr. Christine Greiner*.
Murakami expôs em 2003 no Rockefeller Center com o tema Reversed Double Helix e em frente ao prédio construiu uma escultura com personagens coloridos, com feições agradáveis e infantis que terminam por fazer parte de uma rede de produtos que o artista comercializa. E numa jogada de mestre desenhou uma linha de bolsas para a Vuitton que chegaram ao Brasil em versões originais e piratas e realizou o quase impossível: sua Arte pôde ser apreciada numa grande galeria como a Palais de tokyo e numa Bienal de Veneza e comprada nas lojas e bancas de camelôs no circuito do comercio popular.

* Dr. Christine Greiner no Curso 'A arte japonesa pós anos 90' em realização na Japan Foundation em São Paulo.




O título caiu muito bem. “O peixe que comia estrelas cadentes” traz-nos a sugestão de fantasia infantil. E a sensação que tivemos ao interagir com a instalação dos irmãos Pandolfo foi a mesma de invadir um universo lúdico, de cores alegres e fortes como as de um desenho animado.
Mas este sentimento de escapismo permanece em um primeiro momento. Depois de passada a euforia provocada pelas formas fantásticas de homúnculos e animais estilizados num cenário envolvente passamos a contemplar melhor a obra e a perceber que o que existe de infantil, também existe de sinistro e o que existe de fantasioso, também existe de verdadeiro.
A primeira vez que vimos o trabalho dos irmãos grafiteiros, foi em 1999 numa revista especializada para este público, de lá para cá Osgemeos conquistaram o que os grafiteiros buscam a muito tempo: Que suas intervenções no espaço urbano sejam reconhecidas como expressão artística. No entanto, eles conseguiram mais, levaram o seu Graffiti para as galerias de arte desde 1997 e passaram a trabalhar outras mídias como Objeto e Instalação, assumindo uma posição de artistas contemporâneos.
A instalação está no piso 1 da Galeria Fortes Villaça que foi toda adaptada em função da exposição, a parte externa foi transformada numa grande cabeça amarela, e segundo os artistas, entrar na galeria é como entrar em sua mente. No piso 2 estão expostos 7 quadros produzidos com diversas técnicas: Pintura, colagem, assemblage. Nos quadros coloridos, brilhantes e com lantejoulas, os gêmeos trazem para a exposição o universo nordestino, com ícones da religiosidade e do folclore popular e com personagens de seu próprio universo. No entanto, como grafiteiros não esqueceram do velho spray e dos temas típicos das grandes concentrações urbanas, como a violência. E é neste hibridismo de universos que eles constroem sua arte.
Desde 1999 que Osgemeos expõem no exterior, de Munique, Alemanha até hoje, eles já passaram por muitos países como França, Grécia, Cuba, EUA e outros. E esta exposição é a primeira individual deles no Brasil, portanto quem quiser conferir a exposição fica até o dia 16 de Setembro de 2006, e depois as paredes serão pintadas e as pinturas da instalação cobertas. Segundo Osgemeos, em entrevista ao Play TV no Canal 21 o “Peixe que comia estrelas cadentes” é apenas um instante, um pensamento curto da mente deles. Sendo assim, agradecemos aos irmãos Pandolfo por dividir este momento tão fugaz conosco!

Site da Galeria: http://www.fortesvilaca.com.br/

2006© Marcio R. Gotland